Com 13 candidaturas registradas, campanha entra em nova fase após primeiro debate, sabatinas na televisão e pesquisas que apontam Lula e Flávio Bolsonaro como protagonistas de uma eleição cada vez mais disputada
A corrida pela Presidência da República entrou definitivamente em uma nova fase. Com a campanha eleitoral oficialmente nas ruas e 13 pedidos de candidatura apresentados à Justiça Eleitoral, os presidenciáveis intensificam agendas, entrevistas, ataques aos adversários e a apresentação de propostas na tentativa de conquistar espaço antes do primeiro turno.
Neste momento, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) aparecem como os dois principais nomes da disputa, enquanto Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Augusto Cury (Avante) e os demais candidatos tentam romper a polarização e construir uma alternativa competitiva.
Segundo dados divulgados pela Justiça Eleitoral, foram apresentados 13 pedidos de candidatura à Presidência da República, um a mais que nas eleições de 2022. A lista ainda está sujeita à análise dos registros pela Justiça Eleitoral.
Nova pesquisa mostra empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro
O principal fato novo desta quinta-feira, 27 de agosto, veio das pesquisas eleitorais.
Levantamento PoderData/Aya, realizado entre os dias 23 e 26 de agosto com 2.400 entrevistados, colocou Lula e Flávio Bolsonaro em situação de empate técnico.
No primeiro turno, Lula aparece com 38%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 35%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Mais atrás aparecem Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, todos com 4%. Pablo Marçal aparece com 3%, enquanto Romeu Zema e Hertz Dias registram 2% cada. Edmilson Costa e Samara Martins aparecem com 1%.
Em uma eventual disputa direta no segundo turno, a diferença fica ainda menor: Lula aparece com 45% e Flávio Bolsonaro com 44%, novamente caracterizando empate técnico.
A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04974/2026.
O resultado reforça a percepção de que, embora Lula tenha liderado diferentes levantamentos realizados durante agosto, Flávio Bolsonaro permanece competitivo e a eleição pode caminhar para uma disputa apertada.
Outro levantamento recente, do BTG/Nexus, divulgado nesta semana, havia colocado Lula com 41% contra 37% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
Já pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto mostrou Lula com vantagem em eventual segundo turno, com 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro.
As diferenças entre os institutos mostram que ainda não existe um resultado consolidado, mas há uma tendência clara neste momento da campanha: Lula e Flávio ocupam posições muito superiores aos demais concorrentes e concentram a principal disputa presidencial.
Primeiro debate termina marcado pelas ausências
Outro episódio que movimentou a campanha foi o primeiro grande debate presidencial desta eleição, realizado no domingo (23) pela Band em parceria com outros veículos.
O encontro, entretanto, ficou marcado principalmente por quem não compareceu.
Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema ficaram de fora. Participaram Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury.
A ausência dos dois candidatos que lideram as pesquisas acabou modificando completamente a dinâmica do debate.
Flávio Bolsonaro justificou sua decisão afirmando que pretende confrontar diretamente Lula, considerado por sua campanha o principal adversário. O candidato do PL publicou um vídeo durante a transmissão e concentrou suas críticas no atual presidente.
Com Lula e Flávio ausentes, Caiado, Renan e Cury aproveitaram o espaço para atacar a polarização e tentar apresentar suas candidaturas como alternativas aos dois favoritos.
Renan Santos fez críticas aos dois líderes das pesquisas, enquanto Caiado também questionou as ausências.
O episódio mostrou uma das dificuldades enfrentadas pelos candidatos posicionados no segundo pelotão: como ganhar protagonismo em uma eleição na qual Lula e Flávio concentram grande parte das intenções de voto e da atenção pública?
Lula aposta no governo e na própria trajetória
Candidato à reeleição, Lula entra na disputa com a vantagem e, ao mesmo tempo, com o desgaste natural de quem ocupa o Palácio do Planalto.
Sua estratégia eleitoral passa pela defesa dos programas implementados durante seus governos, pela comparação com administrações anteriores e pela tentativa de reforçar políticas sociais e econômicas.
A campanha também trabalha para preservar o eleitorado historicamente ligado ao petista, especialmente no Nordeste e entre segmentos de menor renda, ao mesmo tempo em que tenta ampliar espaço entre eleitores de centro.
Mas Lula enfrenta uma eleição diferente das anteriores.
Desta vez, além de defender sua trajetória política, precisa responder diretamente pelo desempenho do governo, pela situação econômica, pela segurança pública, pelas contas federais e pelas decisões tomadas durante seu mandato.
Como presidente e candidato simultaneamente, cada indicador econômico e cada decisão do governo passam também a integrar o debate eleitoral.
Flávio Bolsonaro assume o espaço da direita
Do outro lado da principal disputa está Flávio Bolsonaro, que tenta consolidar o eleitorado de direita e herdar a força política construída pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
O senador iniciou a campanha apostando fortemente na segurança pública, endurecimento das penas, combate às organizações criminosas e críticas ao atual governo.
Seu programa inclui propostas como redução da maioridade penal para 16 anos, tratamento mais rigoroso para crimes hediondos, medidas contra facções criminosas, contenção de gastos públicos e desburocratização.
Flávio também defende mudanças institucionais, incluindo limites às decisões monocráticas no Supremo Tribunal Federal.
O desafio de sua campanha será ultrapassar o eleitorado já identificado com o bolsonarismo e conquistar votos de centro suficientes para vencer uma eventual disputa de segundo turno.
As pesquisas mais recentes mostram que essa batalha poderá ser decisiva.
Caiado tenta crescer com discurso de segurança
Ronaldo Caiado (PSD) tenta transformar sua experiência como governador de Goiás e sua política de segurança pública em uma vitrine nacional.
Caiado busca apresentar-se como candidato conservador, mas com experiência administrativa e capacidade de diálogo político.
Sua dificuldade está justamente no espaço ocupado por Flávio Bolsonaro.
Para chegar ao segundo turno, o candidato do PSD precisa conquistar uma parcela significativa do eleitorado de direita e centro-direita que hoje permanece concentrada no candidato do PL.
Sua participação no primeiro debate foi uma oportunidade para aumentar a exposição nacional e criticar diretamente os favoritos ausentes.
Zema aposta na experiência em Minas Gerais
Romeu Zema (Novo) também tenta ocupar o campo da direita e centro-direita.
Ex-governador de Minas Gerais, Zema aposta principalmente em uma agenda econômica liberal, redução do tamanho do Estado, privatizações, responsabilidade fiscal e gestão pública.
Durante sua sabatina no Jornal Nacional nesta semana, foi questionado sobre temas relacionados às contas de Minas Gerais e apresentou posições sobre economia e administração pública.
Assim como Caiado, entretanto, enfrenta o desafio de convencer o eleitorado conservador a abandonar Flávio Bolsonaro e migrar para uma candidatura alternativa.
Renan Santos busca espaço contra a polarização
Renan Santos (Missão) tenta aproveitar justamente o desgaste provocado pela polarização.
Sua estratégia tem sido confrontar tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro, apresentando-se como representante de uma renovação política.
No primeiro debate presidencial, Renan ganhou espaço justamente pela ausência dos dois favoritos e utilizou parte significativa de sua participação para criticá-los.
O grande desafio será transformar exposição nas redes sociais e nos debates em intenção efetiva de voto.
Augusto Cury aposta em discurso de pacificação
O escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) apresenta uma proposta diferente das campanhas tradicionais.
Cury tenta posicionar-se como candidato contrário à radicalização política, defendendo uma chamada cultura da paz e a superação da polarização.
Entre suas propostas estão mudanças no sistema político, educação socioemocional, medicina preventiva, utilização de inteligência artificial na segurança pública e medidas econômicas destinadas a pequenos empreendedores.
Seu desafio, assim como o dos demais candidatos fora do eixo Lula-Flávio, é transformar conhecimento público e exposição nacional em força eleitoral.
Clariana Barão e demais candidaturas
A disputa também conta com Clariana Barão (DC), que apresenta uma chapa formada por duas mulheres e defende propostas relacionadas à proteção de mulheres e crianças, alfabetização, valorização dos professores, modernização do Estado, pequenos negócios e responsabilidade fiscal.
Também estão na corrida presidencial candidatos de partidos menores e representantes de diferentes campos ideológicos, ampliando para 13 o número de pedidos de candidatura apresentados à Justiça Eleitoral.
Entre eles estão Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata), Rui Costa Pimenta (PCO), Hertz Dias (PSTU) e Edmilson Costa (PCB).
Situação de Pablo Marçal ainda depende da Justiça Eleitoral
Um dos casos jurídicos de maior repercussão envolve Pablo Marçal (PRTB).
Embora seu pedido de candidatura tenha sido apresentado, Marçal enfrenta questionamentos relacionados à sua elegibilidade.
O Ministério Público Eleitoral manifestou-se pela rejeição do registro, sustentando que o candidato estaria inelegível até 2032 e apontando também problemas relacionados à comprovação de filiação partidária dentro do prazo exigido.
A palavra final sobre o registro cabe à Justiça Eleitoral.
Por isso, sua situação precisa ser diferenciada das candidaturas que não enfrentam o mesmo tipo de questionamento jurídico.
Horário eleitoral pode mudar dinâmica da campanha
A próxima etapa será particularmente importante.
A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começa neste sábado, 29 de agosto, oferecendo aos candidatos uma oportunidade de apresentar suas mensagens diretamente a milhões de brasileiros.
Para Lula e Flávio Bolsonaro, será o momento de consolidar a polarização e tentar ampliar suas bases.
Para Caiado, Zema, Renan Santos, Augusto Cury e os demais candidatos, será provavelmente uma das principais oportunidades para romper a barreira dos poucos pontos percentuais registrados atualmente nas pesquisas.
Os programas eleitorais também deverão mostrar quais assuntos serão prioritários na reta seguinte da campanha.
Economia, inflação, emprego, segurança pública, corrupção, programas sociais, tamanho do Estado, relação entre os Poderes e funcionamento do Supremo Tribunal Federal estão entre os temas que tendem a dominar o confronto.
Uma eleição que começa a ganhar temperatura
A fotografia eleitoral de agosto mostra uma disputa bastante clara na liderança, mas ainda aberta.
Lula permanece na frente em diversos levantamentos, enquanto Flávio Bolsonaro aparece como seu principal adversário e já consegue alcançar situação de empate técnico em algumas pesquisas.
Atrás deles existe uma batalha diferente.
Caiado, Zema, Renan Santos e Augusto Cury precisam demonstrar rapidamente que possuem capacidade de romper a polarização. Caso contrário, correm o risco de assistir à eleição transformar-se progressivamente em um confronto direto entre PT e PL.
Com debates, sabatinas, propaganda eleitoral e intensificação das viagens pelo país, as próximas semanas serão decisivas.
A grande pergunta que começa a dominar a eleição presidencial de 2026 é simples: o Brasil caminhará novamente para uma disputa entre dois grandes polos políticos ou algum candidato conseguirá quebrar essa lógica antes do primeiro turno?
A resposta começará a ficar mais clara conforme a campanha chegar às ruas, ao rádio e à televisão — e à medida que o eleitor brasileiro passar a acompanhar mais atentamente não apenas os ataques, mas também as propostas apresentadas por quem pretende comandar o país pelos próximos quatro anos.