A contadora que aprendeu a ver a insolvência antes que ela chegasse

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Por Mara Costa

Mais de uma década dentro de um dos processos mais árduos do direito empresarial — a recuperação judicial — ajudou a desenvolver uma metodologia voltada à identificação precoce de riscos financeiros em empresas de pequeno e médio porte. Agora ela transformou esse aprendizado em método.

Quando o Grupo La Rioja entrou em recuperação judicial, em 2013, a contadora Daniele de Sousa Manfredi Cedini já estava lá — e já sabia o que viria a seguir. Formada pela Anhanguera University Center, com mais de uma década dedicados à gestão tributária e contábil do conglomerado, ela passou os anos seguintes dentro do processo: levantando balanços, montando perícias, negociando com credores e implementando controles que fizeram o plano de recuperação ser aprovado sem uma única objeção.

Foi nesse ambiente que ela desenvolveu o que chama de “visão preventiva”: a capacidade de identificar, meses antes do colapso, os sinais que os números já estavam dando — e que quase ninguém lia. “A insolvência nunca chega de repente. Ela se anuncia por meses, em sinais que quase ninguém sabe ler”, diz.

Esse aprendizado se tornou o núcleo do Financial ResilienceScore (FRS) — um sistema de diagnóstico de saúde financeira com 47 indicadores paramétricos voltado a pequenas e médias empresas que têm acesso a capital, mas carecem de instrumentos para transformar esse crédito em sustentabilidade real.

 

Mais de uma década dentro das trincheiras

O Grupo La Rioja era um conglomerado multisetorial: Cantareira Ltda, La Rioja Ltda, FEGARO, Porto Vitória e Imperial Import and Export. Quando Daniele chegou, em 2009, não havia sistema — havia papéis e risco. Ela construiu tudo do zero: módulos de importação, financeiro, contas a pagar e a receber, compras, vendas, faturamento, estoque e tributos.

Os resultados são verificáveis: redução de 30% nos custos operacionais, ganho de 30% na produtividade interna, crescimento de 60% na satisfação dos clientes. Mas o aprendizado mais valioso viria depois — dentro do processo judicial.

“Quando cheguei, não havia sistema. Havia papéis e risco. Quando saí, havia estrutura, compliance e crescimento. — Daniele Manfredi Cedini

 

Crédito não é solução — é prazo

 

Há um padrão que se repete. A empresa obtém um empréstimo, sente alívio, acredita que passou a crise. Não passou. As causas estruturais permanecem intactas: fluxo de caixa sem projeção, controles internos inexistentes, ciclo de cobrança descontrolado. Seis meses depois, a dívida cresceu — e a empresa está mais frágil do que antes do crédito.

“O crédito fácil mascara o problema. O empresário toma o empréstimo, sente alívio, acha que passou a crise. Mas as causas estruturais permanecem. Em seis meses, a situação está pior — e agora com mais dívida. — Daniele Manfredi Cedini

 

O método

O Financial Resilience Score analisa 47 indicadores em seis dimensões: liquidez, solvência, eficiência operacional, rentabilidade, estrutura de capital e sustentabilidade do fluxo de caixa. O resultado é uma classificação de risco em cinco níveis — de “saudável” a “crítico” — acompanhada de um plano de ação priorizado. O sistema se integra às plataformas contábeis já usadas pela empresa, sem exigir mudança de rotina.

A fluência em sistemas como SAP, Oracle, Mega ERP, AS400 e Procwork garante que o diagnóstico não fique no papel. “Formação contábil não é só debitar e creditar. É saber onde está o risco antes que ele apareça no extrato bancário.”

 

Aplicação nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, onde pequenas e médias empresas representam parcela significativa da atividade econômica e enfrentam desafios de capital, juros, fluxo de caixa e sobrevivência nos primeiros anos, Daniele pretende aplicar o FRS como ferramenta preventiva para diagnosticar fragilidades financeiras antes que elas se transformem em insolvência.

A proposta é oferecer às empresas um modelo acessível de leitura de risco, priorização de ações e melhoria de controles, reduzindo a dependência de crédito emergencial e fortalecendo a sustentabilidade operacional. O FRS será aplicado no mercado americano como instrumento de diagnóstico preventivo — levando para um novo contexto a metodologia desenvolvida ao longo de mais de uma década de experiência em recuperação judicial e reestruturação financeira no Brasil.

 

O reconhecimento que antecedeu o projeto

A trajetória de Daniele tem marcos públicos que a colocam além do trabalho técnico. Em 2011, foi selecionada para representar os contadores de São Paulo em programa piloto do SBT sobre mulheres de excelência em suas profissões. Em 2018, foi palestrante em encontro de contabilistas sobre o impacto da inteligência artificial nas análises fiscais. Em 2016, recebeu convite especial para o lançamento de obra dos mais renomados especialistas em tributação do país.

Integra como membra ativa a Government Finance OfficersAssociation (GFOA), a Association for Financial Professionals(AFP), a American Management Association (AMA) e o Global Entrepreneurship Institute (GCASE).

“Qualquer empresa tem como maior ativo a sua credibilidade — conquistada por ações transparentes, respeito às normas e resultados consistentes. — Daniele Manfredi Cedini

 

O que o Brasil ensina

Juros elevados, carga tributária complexa, crédito escasso e volatilidade constante formaram a escola de Daniele. Gerir uma empresa no Brasil exige ferramentas de diagnóstico que, em economias mais estáveis, são tratadas como sofisticação desnecessária. Para ela, são o básico.

“Essas ferramentas que aprendemos a usar por necessidade aqui são vistas como sofisticação desnecessária em mercados mais estáveis. Mas quando a crise chega — e ela sempre chega —, fazem toda a diferença.”

É nesse repertório — construído entre 2009 e 2021 em gestão multisetorial, recuperação judicial e implantação de sistemas do zero — que repousa a base do FRS: um instrumento de avaliação quantitativa padronizada, capaz de detectar riscos antes que a empresa perca a capacidade de reagir.

 

 

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